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Regras para um Parque Humano: uma resposta à “Carta sobre o Humanismo”
Artigos
Escrito por Evelyse Carvalho Ribas   

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

 

O objetivo deste artigo é realizar um estudo crítico acerca da conferência proferida pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk, “Regras para um Parque Humano: uma resposta à Carta sobre o Humanismo".[1]

A conferência que trata, entre outros temas, das novas possibilidades de intervenção biotecnológica no desenvolvimento futuro da espécie humana, pode ser dividida, basicamente, em 5 partes:

1) Caracterização literária-epistolar do humanismo;

2) Exame da crítica de Heidegger ao humanismo;

3) Exame da crítica de Nietzsche ao humanismo;

4) Exame da antropotécnica no diálogo Político, de Platão;

5) Reflexão sobre o colapso contemporâneo do humanismo literário.

O famoso discurso foi lido por Sloterdijk em julho de 1999, no Castelo de Elmau, na Baviera. Nas semanas seguintes as apresentações de seu trabalho, vieram ataques à proposta de vários segmentos da sociedade alemã e francesa – sobretudo de Habermas (um dos mais conceituados filósofos alemães da contemporaneidade), desencadeando uma polêmica que está apenas no início.

Desde a leitura de seu artigo, antes mesmo da publicação do livro, Sloterdijk é acusado de professar um determinismo genético e totalitário, por problematizar algumas das conseqüências advindas da evolução biotecnia.

Contudo, o autor defende-se ressaltando que deve haver uma ampla discussão acerca do velho humanismo antropocêntrico e uma releitura das relações entre animalidade e humanidade, assim como realizar experiências quanto à incerteza das fronteiras entre as histórias da natureza e da cultura.

 

1.0  DESENVOLVIMENTO

 

Peter Sloterdijk é considerado um dos mais destacados renovadores do pensamento filosófico da atualidade, sobretudo, por defender o retorno a um maior rigor filosófico.

No discurso proferido no Castelo de Elmau, Sloterdijk incitou um debate sobre a evolução futura da espécie humana no contexto de "um humanismo que naufragou como escola da domesticação humana", e do qual ninguém poderá se furtar.

A partir deste discurso acerca da crise do humanismo literário enquanto utopia da formação humana, e prosseguindo retroativamente pela denúncia nietzscheana da domesticação apequenadora do ser humano pelo próprio ser humano, até as recomendações de Platão sobre a arte de pastorear seres humanos, inicia-se, na Europa, o maior debate político-filosófico dos últimos anos.

Sloterdijk realizou toda essa regressão, para enfatizar as inevitáveis manipulações genéticas com o objetivo de re-desenhar o ser humano. Ele alerta para a necessidade de se definir regras éticas e controles sociais para as aplicações tecnológicas de seleção pré-natal e o nascimento opcional dos próprios seres humanos. A par disso, questiona acerca da provável reforma genética das características da espécie humana.

Não se pode perder de vista que Sloterdijk é um ensaísta provocativo e que busca chamar a atenção da mídia. Para responder a Habermas, ele recorreu a Heidegger, a Nietzsche e a Platão. Sloterdijk afirma que Habermas ignora as possibilidades abertas pela clonagem, as quais fatalmente se imporão. Por sua vez, Habermas condena todo o tipo de clonagem humana como sendo eugenia da retórica fascista.

Outrossim, oportuno se torna explorar cada uma das questões suscitadas por Sloterdijk:

 

1.1 CARACTERIZAÇÃO LITERÁRIA-EPISTOLAR DO HUMANISMO

Sloterdijk desenvolve sua caracterização do humanismo como fenômeno de estabelecimento dos relacionamentos por meio da escrita. Em outras palavras, o processo de humanização[2] do ser humano na Antigüidade que teve como origem as sociedades literárias. Após, as sociedades literárias ampliam seu alcance, convertendo-se em normas da sociedade política.

Sloterdijk adverte que a sociedade contemporânea sofre de uma febre comunicativa. Todos os problemas são de comunicação: entre casais, entre pais e filhos, entre professores e alunos. No mesmo sentido, a velha luta de classes sociais passou a ser um problema de comunicação entre governos e cidadãos.

Além disso, a pressão publicitária e imbecilizante induzidas pela mídia estariam mudando o patrimônio genético da humanidade no sentido de uma seleção negativa.  Aliás, pode-se dizer que Sloterdijk é um dos europeus que pretendem difundir o anti-capitalismo contra a hegemonia dos Estados Unidos na Europa, principalmente na Alemanha e na França.

Assim, com o intuito de "salvar e aprimorar a espécie da imbecilidade e brutalização induzida pelas mídias", principalmente pelo avanço da barbárie capitalista norte-americana, Sloterdijk propôs a criação de um "Conselho de cientistas e filósofos" para criar um Parque Genético Humano ("Menschenpark"). Este Conselho, desempenhando o papel de seletor ativo e propositado, através de um melhoramento genético, seria encarregado de melhorar a moralidade da espécie humana[3].

A par disso, a utilização da engenharia genética para “reprogramar” o ser humano também seria uma forma de eliminar certas taras e deformidades congênitas de origem biológica.

 

1.2. EXAME DA CRÍTICA DE HEIDEGGER AO HUMANISMO

Na segunda parte do discurso, Sloterdijk sustenta que a principal contribuição crítica de Heidegger à filosofia é uma lógica da responsabilidade. Ele foi um dos primeiros a tentar superar a relação sujeito-objeto. Ademais, apontou as dificuldades da compreensão metafísica do ser resultante do progresso[4].

Para Heidegger, o conflito entre o ser criado para a pequenez e o ser criado para a grandeza é colocado como a “face velada da clareira”, visto serem os padres, os professores, e os políticos os responsáveis pela grande força que atua na domesticação que se voltou para o próprio ser humano. Ou seja, a clareira do ser de Heidegger depende de condições criadas pela tecnologia.

Como se observa, o humanismo de Heidegger é aquele que "pensa a humanidade do homem desde a proximidade do ser". O que deve ser analisado é a história e origem do ser humano, do ponto de vista da verdade do ser. Ou seja, é um humanismo para além do ser humano que, por sua vez, depende da linguagem e do acesso do pensamento originário àquela verdade que pertence à linguagem.

Por seu turno, Sloterdijk assinala que o tema da chegada do ser humano ao mundo e da permanência no mundo, não foi tratado de forma satisfatória por Heidegger, em razão da sua oposição ferrenha a toda antropologia, tanto filosófica quanto científica[5].

De fato, Sloterdijk enfatiza a desatenção de Heidegger para com o fenômeno da animalidade humana, em particular, para com o fato de o ser humano ser um animal fracassado e, por isso mesmo, desde o início da vida, um ser condicionado cultural e tecnicamente. Na medida em que cresce, ele precisa satisfazer exigências operativas para tornar-se adulto, o que inclui o desenvolvimento tanto tecnológico quanto mental e espiritual.

Para tanto, e na tentativa de tornar a sua proposta mais precisa, Sloterdijk retoma a questão seguinte: como o animal foi desanimalizado a ponto de poder entrar na clareira do ser?

Porém, Sloterdijk não responde a esta questão, mas, sustenta que recolocada sob condições antropológicas efetivas, a busca de uma defesa contra a intrusão técnica não será mais pensada como espera de um deus que nos salve, mas redirecionada para uma integração da técnica que não poderá mais ter o caráter de uma totalização.

 

1.3. EXAME DA CRÍTICA DE NIETZSCHE AO HUMANISMO

Após essa digressão acerca de Heidegger, Sloterdijk lembra de Nietzsche, que faz da vida um Eterno Retorno, compreende nessa própria vida a questão da animalidade do ser humano. Segundo Sloterdijk, mais que mera domesticação, Nietzsche vê nesse processo uma autêntica criação, com a prática deliberada de seleção[6].

Sloterdijk sustenta que o ser humano fracassou em seu ser-animal, assim, saiu de seu ambiente e com isso ganhou o mundo no sentido ontológico[7]. A domesticação do ser humano é tratada como fonte complexa, de difícil entendimento para um animal que se transformou em humano.

Além disso, o centro lógico do discurso — a intuição, inspirada em Nietzsche, de que a clareira do ser de Heidegger depende de condições criadas pela tecnologia — não teria sido percebido nem levado em conta. O ponto decisivo afirmado é o de que o “‘ser humano’ não existe, precisando produzir-se a si mesmo, num contencioso permanente em torno do seu ser não determinado”.

Desta questão surgem os conceitos de criação e educação, pois quando alguns estão preocupados em domesticar, uma grande maioria não entende o porquê deles no mundo e diante deste mundo.

Nesse sentido, surge a questão da noção de Nietzsche[8] de “obrigatoriedade da grande política”, ou seja, para a humanidade e para a Europa em particular, será necessário o preenchimento de um novo conteúdo contemporâneo, após o fim do vácuo no qual a tragou sua trágica safra de totalitarismos e guerras mundiais?

 

1.4 EXAME DA ANTROPOTÉCNICA NO DIÁLOGO POLÍTICO, DE PLATÃO

A pergunta principal neste contexto é como enfrentar as desigualdades entre os homens. Para Platão existe uma arte da criação, da domesticação, onde os seres humanos são controlados e nivelados a fim de serem uma comunidade pacífica e saudável. Essa arte da criação é realizada pelo “sábio”, visto ser ele quem restou após os deuses deixarem os homens.

O que Platão expõe, pelos lábios de seu estrangeiro, é um programa de uma sociedade humanista que toma corpo na figura um único humanista pleno, o senhor régio do pastoreio. A tarefa desse “sábio” (super-humanista) não seria outra senão planejar as qualidades de uma elite[9] que tem de ser procriada em benefício do próprio todo.

De fato, no passado, a humanidade usou sistematicamente, embora de forma inconsciente, as mais diversas técnicas antropogênicas: regras de parentesco, de casamento, de guerras, de educação, de controle sexual, de práticas punitivas. Atualmente, após o escaneamento do genoma humano, essas regras, estabelecidas por ensaio e erro, já vêm sendo substituídas pelas políticas de tecnologia antropológicas perfeitamente conscientes.

A domesticação do ser, o teorema central da tecnologia antropológica diz: o homem é, no fundo, um produto e só pode ser compreendido na medida em que forem identificados os procedimentos de sua produção.

Como Platão, Sloterdijk pretende otimizar a cidade e reunir ao mesmo tempo “a coragem guerreira e a temperança filosófica e humana”, sob a direção dos sábios. Sendo assim, Sloterdijk opta pela genética contra a educação.

 

1.5 REFLEXÃO SOBRE O COLAPSO CONTEMPORÂNEO DO HUMANISMO

Finalizando, o autor sugere que agora foram os sábios que deixaram os homens, sobrando apenas suas cartas. Entretanto, já não há os capacitados, os amigos para a leitura completa dessas cartas, sobrando para os arquivistas a tarefa de investigá-las – e “arquivá-las”.

Porém, adverte que o papel reservado aos intelectuais é o de identificar uma utopia social viável, uma arquitetura, ou seja, um paradigma da coerência construtiva que recombine tensões e integridades, razões e insanidades. Essa perspectiva comum requer um outro modo de pensar e fazer, uma aceitação da responsabilidade social destinada a impedir que a política do pior floresça.

Mister se faz ressaltar que nas entrelinhas, Sloterdijk apresenta duas crises do humanismo contemporâneo: A primeira refere-se à insuficiente consideração tanto da mutação informacional quanto da revolução biológica. A segunda, mais histórica, está relacionada às carências do indivíduo, da razão e do progresso, tal como foram construídos a partir do período das Luzes.

A competição atual sobre a decodificação do genoma humano mostra que o ser humano ainda não é aquilo que podia ser. A sugestão de Sloterdijk pode ser resumida com a afirmação de que a metafísica tradicional da naturafactualidade precisa ser refeita numa teoria mais ampla da artefactualidade. Como ele mesmo diz, “a fim de podermos permanecer humanistas, temos de nos tornar cibernéticos”.

De fato, Sloterdijk adverte que há necessidade de agir e participar sempre que possível, mesmo que a perdição seja grande e a tentação do refúgio paranóico maior ainda. Acrescenta, que a imagem do cientista ambicioso, isolado da natureza e dos afetos, criador de criaturas, deve ser superada, para dar lugar ao cientista amoroso, capaz de fazer dialogar o sensato e o insensato que sempre marcou a aventura humana.

Assim, talvez seja possível aplacar os monstros da razão e perceber que a vida é bela, apesar das desavenças e domesticações que a historialidade imprimiu ao cientista, compelindo-o a optar entre um racionalismo redutor e um idealismo apaixonado.

 

2.0  CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Como se percebe, Sloterdijk representa uma corrente filosófica não-clássica e extremamente inquietante baseada na crítica ao humanismo. Sloterdijk propõe uma filosofia contemporânea que não permaneça presa a um realismo modelado sobre a natureza nem sonhe mais com possibilidades utópicas, mas mostre-se disposta a considerar as alternativas da antropogênese disponibilizadas pela biotecnologia.

Retomando Nietzsche para criticar Heidegger, Sloterdijk argumenta que a sociedade ocidental desde Platão tem sido o resultado da domesticação do homem pelo homem. Partindo de uma seleção psicológica e da lição escolar o humanismo teria construído artificialmente uma cultura que prezava a inibição das forças destrutivas que também compõem o ser humano. Assim, Sloterdijk sustenta que a cultura humanista estaria hoje vencida, soterrada no lixo das mídias produzido pelas novas formas de dar vazão à barbárie, como a televisão e a internet.

Por isso, Sloterdijk vê na biologia molecular a nova bateria tecnológica capaz de dirigir o curso genético da evolução humana, como no passado a educação humanística dirigiu a evolução da psicologia individual e das massas.

Não se pode olvidar que o ser humano está em vias de domesticar o seu próprio ser, neste momento em que a plástica genética acena com a possibilidade de retardar ao máximo a maturidade do ser humano. Ademais, as novas técnicas de manipulação e seleção genética já são uma realidade à qual não se pode fechar os olhos.

De fato, há a possibilidade concreta de inserir genes em células humanas com o objetivo de se obter crianças mais inteligentes, fortes e saudáveis. As manipulações genéticas serão feitas quer se queira ou não.

Sloterdijk supõe que, daqui há duas gerações, a biotecnologia nos dará os meios para conseguir aquilo que os cientistas sociais não conseguiram fazer: modificar profundamente o substrato natural do comportamento humano. Assim sendo, estaremos terminando definitivamente com a história humana, porque teremos abolido os seres humanos como tais. Aí começaremos uma nova história, para além do ser humano.

Convém ressaltar, que a automanipulação do ser humano já começou. Onde Platão ainda via o bem natural, o olho moderno vê o bem técnico. Agora, nada é bom que não possa constantemente ser melhorado.

Neste sentido deve-se dizer que o antídoto à aplicação cega da genética é começar a discutir, desde logo, o que deve e o que não deve ser permitido, e quais normas serão impostas aos que pretendam promover e comercializar serviços de aperfeiçoamento genético.




 


[1] Sloterdijk, Peter. Regras para o parque humano: uma resposta à “Carta sobre o Humanismo.”  Conferência pronunciada en el Castillo de Elmau, Baviera, en julio de 1999, con motivo del Simposio Internacional “Jenseits des Seins / Exodus from Being / Philosophie nach Heidegger”, en el marco de los Simposios del Castillo de Elmau sobre “La filosofía en el final del siglo”  (Philosophie am Ende des Jahrhunderts) El texto fue publicado en Die Zeit el 10 de septiembre de 1999.

 

[2] Para Sloterdijk, as origens do humanismo na Antigüidade estiveram ligadas ao exercício de uma inibição: o hábito da leitura como agente capaz de pacificar, domesticar, desenvolver a paciência, em oposição aos frenéticos divertimentos nos teatros ao redor do Mediterrâneo. Segundo o autor, há no humanismo, um esforço de repressão, de retração dessa animalidade e dessa selvageria latentes no ser humano. Assim, Sloterdijk entende a Humanização como uma oposição à selvageria e brutalidade representadas pelas duas “mídias”, a do anfiteatro e a do livro.

[3] Os gens agressivos, por exemplo, seriam controlados por "técnicas abortivas pré-natais", como um primeiro passo para deter a violência que tomou conta do planeta após o fim da guerra fria.

 

[4] Heidegger sempre se manteve desvinculado da corrente existencialista, não só porque era contra qualquer classificação do pensamento, mas, sobretudo, por causa do papel fundamental exercido pelo conceito de "nada", entre os franceses - para quem o nada poderia gerar a sensação de náusea existencial.

[5] Heidegger critica as três facções humanistas que tentaram dominar o mundo antes das 1ª e 2ª Guerras Mundiais: o bolchevismo, o fascismo e o americanismo. Após as 2 Guerras, Heidegger critica as três alternativas na tentativa de restaurar o humanismo: o cristianismo, o marxismo e o existencialismo. Heidegger sustenta que todas as seis são variações do humanismo porque todas evitam a radicalidade última da questão sobre o que é o ser humano.

[6] Criadores moldaram os seres humanos como seres pacíficos e inócuos, para que não representem ameaça uns para os outros. Sloterdijk se apóia em Nietzsche para justificar a produção em série de seres humanos quase que perfeitos.

[7] “Cinética ontológica”, pensada como o movimento de queda (chegada ao mundo), experiência (permanência no mundo) e virada ascendente (saída do mundo) — destacando a sua semelhança com o pensamento gnóstico.

 

[8] Nietzsche é o pensador que talvez mais se afine com a moral moderna de que devemos superar os valores tradicionais de transcendência e harmonia e vivermos intensamente o momento, criando e destruindo valores. De fato, Nietzsche é o filósofo que preconiza a morte de Deus; é aquele para o qual fazer filosofia deve ser algo como brandir um martelo na direção de todas as convenções.

[9] Esta elite seria composta por uma combinação de pessoas sábias com pessoas corajosas.

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