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A Conformação do Paradigma das Relações Internacionais Contemporâneas: tendências e perspectivas para o século XXI
Artigos
Escrito por Evelyse Carvalho Ribas   

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

 

O objetivo deste artigo, que possui aspectos confessadamente exploratórios, é realizar um estudo crítico com base, sobretudo, na obra “Relações Internacionais: interdependência e sociedade global”, dos Professores Odete Maria de Oliveira e Arno Dal Ri Júnior, acerca do tema: “A conformação do paradigma das Relações Internacionais contemporâneas: tendências e perspectivas para o século XXI".[1]

Dessa forma, são analisadas as relações entre os diversos atores internacionais e a forma como estas relações se alteraram ao longo dos anos, desde o momento em que o paradigma idealista aflora na disciplina das Relações Internacionais, até os presentes dias, com incidência do paradigma da interdependência.

Objetiva-se, assim, avaliar se a “teoria da interdependência” conseguiu suportar e explicar as intensas transformações na ordem internacional, de modo mais coerente que as outras teorias.

Para tanto, o texto está dividido em 4 partes:

1.0) Conceito de paradigma;

2.0) Configuração dos antigos paradigmas;

3.0) Tendências e perspectivas;

4.0) Considerações finais. 

No artigo é utilizada a técnica dos conceitos operacionais, que irão sendo explicitados no discorrer das abordagens.

A pesquisa é essencialmente bibliográfica e não se objetiva dissecar o tema acerca das tendências e perspectivas do paradigma das Relações Internacionais contemporâneas para o século XXI, porém, ilustrar sinteticamente seus pontos mais salientes.    

 

1.0  CONCEITO DE PARADIGMA

 

O conceito de paradigma é particularmente importante para compreender, não apenas a ciência, mas a própria vida em sociedade. Pois, como se observa, muito dos conflitos que acontecem resultam de choques entre pessoas que vêem a realidade de maneiras distintas e, por vezes, antagônicas.

A palavra paradigma, com derivação do Grego – parádeigma – consigna o sentido de modelo, de padrão. Platão empregou a palavra com o significado de modelo ao considerar como paradigma o mundo dos seres eternos, do qual o mundo sensível é imagem.

Mais tarde, com as colocações de Robin Collingwood, esta noção começou a adquirir os contornos cada vez mais próximos, àqueles que possui atualmente.

Porém, foi somente com Thomas S. Kuhn, que seu esboço assumiu uma forma mais precisa. De fato, os estudos deste autor foram realizados com base na análise do progresso científico ocorrido nas várias ciências.

Kuhn concebeu paradigma como "... as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência". [2]

Como se depreende, para Kuhn, paradigma é um modelo de pensamento e ação que orienta os pesquisadores e práticos de uma determinada ciência indicando quais são os problemas e métodos legítimos daquele campo de pesquisa para as gerações atuais e futuras de praticantes da ciência.

O autor defendeu que os grandes progressos da ciência não resultam de mecanismos de continuidade, mas sim de mecanismos de ruptura.[3]

Por sua vez, Odete Maria de Oliveira adverte que o paradigma não pode ser confundido com noções de marco, teoria ou método:

 

... já que um paradigma se alicerça em uma reunião de postulados fundamentais sobre o mundo fenomenológico, com a finalidade de direcionar a complexa tarefa do pesquisador tanto na interpretação como na representação do objeto de conhecimento investigado.[4]

 

Posta assim a questão, é de se dizer que este pensamento sistêmico está à frente de uma evolução que poderá criar condições para a mudança paradigmática que se anuncia em nossa civilização, dando sustentação às profundas transformações necessárias à história de nossas mentalidades.

É bem verdade que, o processo da vida apresenta-se como obra aberta, onde tudo é passível de mudança e transformação através da interação de diferentes formas de ver, sentir e atuar no mundo. Ao mesmo tempo, um paradigma possibilita a comunicação entre as diversas partes dessa obra, entre os diversos segmentos da sociedade e entre indivíduos e suas diferentes formas de pensar e sentir.

 

1.1 OS PARADIGMAS NO CONTEXTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

 

Anteriormente ao estudo de Kuhn, pensava-se que a ciência progredia de forma contínua, por melhoramentos consecutivos, que iam sendo adicionados por sucessivos estudos científicos.

Porém, com os estudos realizados pelo autor, questionou-se o entendimento que se tinha do progresso de uma ciência como resultado do acúmulo gradativo de novos conhecimentos, em razão disso, possuir paradigmas passou a ser um pré-requisito de maturidade para qualquer ciência social.

Kuhn descreve o período inicial do desenvolvimento de cada ciência com sendo aquele em que várias escolas, correntes ou abordagem disputam a condição de se tornarem paradigmas naquela ciência. O autor descreve como ciências imaturas àquelas que ainda não têm paradigmas, e que, como tal, nem sequer podem ser consideradas ciências.

Um investigador que pretenda fazer ciência na ausência de um paradigma unificador depara com uma coleção arbitrária de conceitos não organizados, sem qualquer estrutura integradora capaz de lhes dar coerência e unidade, ou então com múltiplas propostas de estruturas integradoras que são inconciliáveis entre si.[5]

Segundo Kuhn, sem um paradigma, a ciência não poderia se desenvolver, porque cada cientista atiraria para um lado. O paradigma permite que os resultados dialoguem, que os avanços se somem.

Por sua vez, uma ciência que já estabeleceu os seus paradigmas é considerada uma ciência normal. Durante esse período, o mundo ao qual essa ciência se aplica é visto por todos os seus praticantes segundo uma mesma perspectiva. Todos vêem o mundo da mesma maneira.

Isto ocorre desse modo porque “... uma comunidade científica, ao adquirir um paradigma, adquire igualmente um critério para a escolha de problemas que, enquanto o paradigma for aceito, poderemos considerar como dotados de uma solução possível”. [6]

Como se percebe, o paradigma associa-se à atividade de busca visando a transformação e a ampliação do conhecimento. Com isso, um determinado grupo dominaria um patamar básico de conhecimentos necessários para dar suporte à concepção e à recepção das questões científicas. Tal circunstância é demonstrada pela investigação histórica da comunidade acadêmica.

O paradigma atrai e aglutina um grupo duradouro de estudiosos. Estes estudiosos do paradigma estão dispostos a abandonar outras formas de pesquisa dissimilares, as quais não se encontram delimitadas no campo do paradigma ao qual se engajaram.

A par disso, Kuhn observa um conjunto de fenômenos que funcionaria como um fundo não dialetizado do saber do campo especializado, dando aos pesquisadores certeza do perfil do conhecimento mais correto. Com isso, forma-se a crença nesse saber que, sendo seguido como verdadeiro, levará imediatamente a uma resistência às mudanças.

Porém, a certa altura, alguns dos praticantes dessa ou de outra ciência começam a descobrir contradições internas e chegam à conclusão de que a forma de ver o mundo em que essa ciência se baseia não é adequada. Começam a descobrir que o mundo devia ser olhado de outra maneira.

Assim, quando as certezas começam a ser contraditadas, ou quando as práticas de laboratório seguem teorias mais recentes e adotam outros procedimentos metodológicos, produzindo resultados científicos mais facilmente aceitos, outro paradigma pode ser proposto.

Os grandes progressos de uma ciência só acontecem quando os seus próprios paradigmas são desafiados e substituídos por novos paradigmas. Daí por que, quando a ciência tem seus paradigmas questionados pela emergência de um novo paradigma, referida ciência está submetida a um processo de revolução científica.

Esta revolução científica, que é a forma de Kuhn explicar o progresso científico de uma ciência, está associada a uma mudança de compromissos e crenças aceitas e compartilhadas pela comunidade daquela ciência.

Inadequado seria esquecer que a perspectiva de Kuhn tende a ser drástica quanto à forma de ruptura que o novo paradigma provoca na comunidade científica. Para o autor, “quando a comunidade científica repudia um antigo paradigma, renuncia simultaneamente à maioria dos livros e artigos que o corporificam, deixando de considerá-los como objeto adequado ao escrutínio científico”.[7]

Por outro lado, Odete Maria de Oliveira faz uma interessante distinção entre crise e mudança de paradigma:

 

..., um paradigma está em crise quando a comunidade científica se encontrar em vias de perder a crença em seu poder explicativo, ou quando surgir paradigma alternativo com competência para competir.

Já uma mudança de paradigma poderá acontecer quando nova escola de pensamento, ou novo pensar coletivo, ganhar hegemonia em questões epistemológicas e interesse científico comum e público. Logo, o que muda e o que importa à mudança paradigmática não é o fato científico, mas o modo subjetivo de crença. Em conseqüência, uma crise de paradigma não poderá ser decretada por um discurso que aponte o progresso científico, ou epistemológico; mas por análises da relação entre desafios sociais – em largo sentido – e sistemas de pensamento. [8]

 

A autora sustenta que a ciência das Relações Internacionais deve ser moldada teoricamente por meio de vários modelos operacionais de interpretação, pois a diversidade teórica é decorrência da própria complexidade do objeto de conhecimento dessa ciência. Em outras palavras, apesar das lacunas e insuficiências implícitas que todos os atores internacionais apresentam, a sociedade internacional abrange as relações entre todos eles, num jogo de diversificadas interações, cujas dimensões e primazias são interpretadas pelos diversos paradigmas.    

Em virtude dessas considerações, pode-se dizer que indubitável é a necessidade de se ter flexibilidade intelectual para possibilitar a mudança de paradigma. Uma vez ganha essa flexibilidade, pode-se, então, analisar cuidadosamente os paradigmas em jogo e fazer opções muito mais apropriadas aos universos nos quais, em cada momento, o ser humano se situa.

 

2.0 CONFIGURAÇÃO DOS ANTIGOS PARADIGMAS

 

No decorrer da história das ciências, foram construídos e adotados vários paradigmas. Para melhor compreender os paradigmas das Relações Internacionais, eles são divididos em: idealista; realista; dependência; interdependência. Passa-se a analisar sinteticamente, cada um dos paradigmas.

 

2.1 PARADIGMA IDEALISTA

O paradigma idealista surge na Europa, sobretudo na Inglaterra, após a 1ª da Guerra Mundial, na tentativa de estudar os motivos de tamanha violência e evitar futuras guerras. Como se nota, o paradigma idealista nasce de uma necessidade internacional, uma necessidade de analisar o sistema internacional em busca da Paz.  

Os idealistas buscavam alternativas para a construção de uma ordem articulada a partir dos valores morais, normas e instituições jurídicas. Almejavam uma estrutura organizacional de alcance mundial, condenavam a prática dos pactos secretos e pediam o fim da diplomacia profissional e abandono da política do equilíbrio de poder.

Assim, o então Presidente dos EUA, Woodrow Wilson, através do paradigma idealista, busca a transformação, a modificação da realidade (“dever ser”) e, firma o Tratado Internacional denominado Liga das Nações (Organização dos Estados). [9]

Porém, embora a Liga das Nações tenha se apresentado como a saída mais racional para evitar que horrores como a Primeira Guerra Mundial voltassem a ocorrer, o fato é, que não havia o devido comprometimento das nações com a elaboração desta nova ordem internacional.

Na verdade, o fracasso da Liga das Nações, em 1929, demonstrou o triunfo da desconfiança recíproca entre países e exaltou o equívoco e a inadequação histórica dos princípios do idealismo em acreditarem na harmonia de interesses.

Neste contexto, sobreveio o paradigma realista, que buscava atingir o caráter ingênuo e normativo do idealismo.  

 

2.2. PARADIGMA REALISTA

A primeira etapa do paradigma realista, também conhecido como tradicional, pode ser situada no século IV antes de Cristo e, firmou raízes no século XVI e seguintes. Estes conhecimentos adquiridos ao longo dos séculos foram se consolidar na própria constituição da disciplina das Relações Internacionais apenas no século XX, configurando a segunda fase desse clássico paradigma.

O paradigma realista vê a realidade de forma crua, objetiva, cruel, opressora (“o que é”) – estado da natureza. Para os realistas o ser humano é mau por natureza e apenas busca o interesse próprio.

A denominada segunda etapa do paradigma realista (1930 – 1950), que teve hegemonia quase absoluta na sociedade internacional moderna, prolongou-se até o final dos anos 50, quando ficou conhecido como modelo da política do poder – realismo político.[10]

No paradigma realista há um estado de descentralização, de anarquia, onde se mantém quem tem maior poder militar. O realismo político compreende as relações internacionais como sendo determinadas por elementos de segurança e militarização.   

Segundo os realistas, para que o mundo funcione em perfeita ordem, é indispensável a existência de um Estado hegemônico, responsável pela instituição de um regime político internacional e pela manutenção e controle por intermédio da ameaça militar. [11]

Nesta perspectiva, o ator supervalorizado é o Estado. Ou seja, os indivíduos ou organizações internacionais que não detêm poder de sanção (militar ou jurídica) não possuem qualquer função de relevância na sociedade internacional.  

A terceira etapa do paradigma realista, aproximadamente na década de 70, denominada neo-realismo, enfrentou diversos desafios, dentre eles a autorga de mais rigor científico ao realismo, interdependência e a globalização da economia.  

Com as transformações sociais que a Guerra Fria inevitavelmente provocou, o realismo foi pouco a pouco perdendo espaço.[12] Ao mesmo tempo, o surgimento das armas nucleares veio alterar os mecanismos do sistema de equilíbrio de poder, na medida em que a possibilidade do uso da força é repensada entre as duas potências pela alta capacidade de destruição.

Com a flexibilização no relacionamento entre União Soviética e Estados Unidos, a corrida armamentista e as intervenções militares em terceiros países, evidenciou-se que a bipolaridade já não se aplicava ao campo econômico, possibilitando algum desenvolvimento de outros países.

Como se depreende, a transição para um novo sistema mundial ocorreu com o fim da Guerra Fria e a ascensão de novas economias, principalmente Alemanha e Japão, que ao lado dos Estados Unidos passaram a representar os pólos da nova geometria mundial.

Neste contexto, surgem outros paradigmas – com novas concepções e propostas estruturais – oferecendo respostas mais adequadas às questões das Relações Internacionais. Porém, a importância do paradigma realista, tanto no ensino acadêmico como na esfera política de diversos países – sobretudo EUA -, estende-se até os presentes dias. 

Neste sentido deve-se dizer que o alicerce central da teoria desenvolvida pelos realistas contemporâneos é a estrutura das relações internacionais. É às estruturas internacionais que se deve recorrer para explicar a política internacional, pois é ela que determina a posição e a forma de atuação de cada Estado. 

 

2.3 PARADIGMA DA DEPENDÊNCIA 

O paradigma da dependência, também conhecido como paradigma marginal ou crítico, surgiu na América Latina no início da década de 70, afirmando que as relações internacionais são relações de poder assimétricas, entre os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento, ou, países ricos e países pobres.[13]

Com esta teoria, a América Latina começa a ser conhecida mundialmente, ademais, os intelectuais da América Latina começam a se conhecer e a desenvolver trabalhos conjuntos. Como protagonistas do paradigma da dependência, tem-se: Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Enzo Faletto.   

Os defensores do paradigma da dependência subdividem-se em: marxistas (visam o fim do capitalismo) e não-marxistas (vêem uma falha na instituição do capitalismo e, propõem uma reestruturação no capitalismo).[14]

Fernando Henrique Cardoso é um dos não-marxistas, que sustentam que o capitalismo é a falha no desenvolvimento, e, portanto, este sistema de produção deve ser reestruturado. Uma das saídas para este cenário seria a substituição das importações, com o objetivo de gerar protecionismo ao mercado nacional. Outra saída seria gerar conhecimento e educação e, uma terceira alternativa seria gerar uma cultura latino-americana.

Outro fator da mantença desta situação de dependência econômica e política é o financiamento da dívida externa dos países em desenvolvimento, pelos países desenvolvidos. A dívida externa gera a dívida interna, porque para o pagamento daquela, o governo se obriga a realizar empréstimos nas instituições financeiras nacionais privadas. Assim, o paradigma da dependência é mantido tanto por fatores externos, quanto por fatores internos.   

Porém, esta teoria do “boicote” à dependência externa, não é totalmente aplicável, tendo em vista a dívida externa e a pouca politização do povo latino-americano. Ademais, o paradigma da dependência não abrangeu todas as relações dos Estados-nações, muito menos dos novos atores mundiais.

 

2.4 PARADIGMA DA INTERDEPENDÊNCIA

Indubitável é que o Estado moderno não é mais capaz, por si só, de gerir e realizar a manutenção da paz e a estabilidade das relações com outros Estados e com os novos atores internacionais. Assim, o paradigma da interdependência, também conhecido como paradigma pluralista ou dependência mútua, nasce na década de 70 convivendo concomitantemente ao realista, a partir da ascendência de novos atores no cenário internacional e da necessidade de melhor explicar as relações internacionais. [15]

Esta interdependência é bastante complexa, com destaque ao transnacionalismo, ou seja, transcende o conceito de fronteira, território, soberania e nacionalidade. O Estado já não é mais o centro do poder, mas, há vários outros atores internacionais, sobretudo as empresas transnacionais, que assumem este poder ao lado dos Estados – multicentrismo.[16]

Não se pode perder de vista, que o crescimento das relações internacionais não desafia a existência dos Estados, contudo, questões econômicas, em termos de investimento, localização da produção, inovação tecnológica, relações fiscais e de trabalho, refletem o poder de barganha das empresas transnacionais.

Oportuno se torna dizer que a globalização além de deslocar a soberania estatal para entidades políticas supranacionais, com a atuação dos agentes econômicos transestatais e as tecnologias da comunicação instantânea dificultam o exercício do poder estatal, uma vez que os novos atores transnacionais têm grande influência nos destinos do mundo.[17]

Pelo fato das relações internacionais contemporâneas apresentarem um dinâmico processo de transição, exige-se cautela da definição das suas características e processos de distribuição de poder. Assim, reconhecer o enfraquecimento do papel do Estado é prematuro, principalmente quando se trata de uma nova ordem internacional ainda em construção.

Neste cenário, há a incidência de inúmeros interesses mútuos (econômicos, sociais, políticos, militares, ambientais). Cumpre salientar, que não há hierarquia entre os interesses internos de cada Estado, visto que, há vários órgãos governamentais com diferentes interesses e todos eles igualmente importantes.

Por seu turno, entre os atores que interagem no cenário internacional, depara-se com a questão da assimetria advinda das inúmeras desigualdades encontradas no meio social, econômico, cultural e político. Pois, ao mesmo tempo em que as relações de interdependência aumentam as possibilidades de intercâmbio e de fluxos internacionais, criam também condições para aprofundar as relações assimétricas entre os Estados, podendo levar a relações de pura dependência. 

São as inúmeras diferenças entre os Estados, que tornam a interdependência assimétrica, pois trazem benefícios diferenciados, implicando mais benefícios para uns e menos para outros. Por isso, a partir do momento em que as fronteiras dos Estados tornam-se diluídas, com ênfase no lado econômico e financeiro, as relações tornam-se assimétricas fomentando a sensibilidade e a vulnerabilidade dos atores.[18]   

As assimetrias decorrentes da sensibilidade e da vulnerabilidade dos atores em face das relações assumidas ajudam a fomentar, perante os Estados, o poder hegemônico. Convém ressaltar, que quem detém a hegemonia busca construir a política econômica internacional, de modo a poder sustentar seus interesses e ideologias.

É na globalização, que o poder hegemônico vem se consolidando de maneira lenta, gradual e permanente. É com a ação das organizações internacionais e pela estrutura que elas possuem, tentando demonstrar terem base essencialmente democrática, que se produz e reproduz a integração intelectual e a integração moral do grupo ou da classe em nome de interesses de agentes dominantes.[19]

Mister se faz ressaltar que, atualmente, as relações entre os atores internacionais são marcadas por interações de constrangimento, assimetria, mas também de cooperação.

Neste sentido, deve-se dizer que a interdependência traz três características principais: os canais múltiplos, a ausência da hierarquia dos temas da agenda internacional e o enfraquecimento do uso da força. [20]

Convém ressaltar que a realidade emergente está na troca de informações e no desenvolvimento tecnológico que se manifesta na realidade virtual.

Apesar de todos os acertos apresentados pela teoria da interdependência, os seus críticos dizem que além desta teoria apresentar várias fraquezas decorrentes da complexidade sistêmica adotada, consiste em uma situação ideal que não encontra respaldo na realidade fática.

Não se pode olvidar, que o direito internacional é uma forma de limitação de poder dos diversos atores internacionais. Com efeito, o direito internacional sustenta o sistema internacional por meio de um conjunto de princípios e normas fundamentais que representam o mínimo necessário para a manutenção e operação regular do sistema.

 

3.0 TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS

 

Desde que Kuhn apresentou o conceito de paradigma como variável central para se compreender o processo de desenvolvimento da ciência, ocorreram grandes progressos científicos em várias ciências, dentre as quais se destaca, o campo das Relações Internacionais.

A emergente sociedade internacional apresenta três realidades marcantes: a heterogeneidade de sua estrutura – decorrente do fim do sistema bipolar -, a diferença de sistema sócio-econômico entre os Estados e a busca da universalidade.

Na complexidade das relações internacionais contemporâneas convivem situações e fenômenos abarcados tanto pelo paradigma da interdependência quanto pelo paradigma do realismo político.

Apesar do modelo interdependente elucidar algumas questões e apresentar uma lista de considerações e de elementos mais amplos que aqueles fornecidos pelo realismo, deixa ainda muitas dúvidas que paradigmas anteriores também não conseguiram explicar.

O modelo proposto pelo paradigma da interdependência é satisfatório, por exemplo, quando analisa a presença de novos atores nas relações internacionais, reconhece que os Estados mantêm relações assimétricas e destaca os fluxos de capital internacional por meio das poderosas transnacionais.

Porém, é bem verdade que se vislumbram muitas situações em que a teoria realista se mostra mais apropriada para fornecer a explicação dos acontecimentos contemporâneos, como por exemplo, quando as ações militares acompanham a defesa de interesses econômicos estatais. São práticas hegemônicas de manutenção de poder.

Por isso, vários autores afirmam que a questão dos paradigmas das Relações Internacionais apresenta sinais de crise e, como tentativa de solução para esses problemas, têm surgido tendências de construção de novos paradigmas.

Neste cenário, o pluralismo paradigmático que se ensaia deverá implicar não a exclusão, mas a inclusão, um modelo com considerações flexíveis, cujas características tanto possam abarcar a importância do protagonismo dos atores estatais como não-estatais.

O grande desafio de nosso tempo é aprender e interpretar a constante mutação da sociedade global em rede.  E, neste sentido, a questão polêmica se apresenta na possibilidade de se aceitar todos os paradigmas das Relações Internacionais num sentido conjunto, integrado e complementar.

Em consonância com o acatado, Odete Maria de Oliveira, nos brinda com sua lição:

 

A teoria das relações internacionais – voltada à realidade da sociedade internacional global – poderá encontrar validade na tendência do chamado pluralismo teórico, com o predomínio humanista do homem como verdadeiro ator das relações internacionais, ao lado dos demais atores, apesar da grande dificuldade que essa tendência está encontrando no âmbito da sua práxis.   

 

Felizmente, assiste-se à acumulação de sinais que parecem anunciar a recomposição de uma nova ordem mundial, com questões fundamentais que orientarão as relações internacionais.

Pergunta-se: Poderá essa ordem incorporar o acervo de valores e princípios que são patrimônio da comunidade internacional, como a Paz, a estabilidade internacional, a liberdade, os direitos humanos? Se sim de que forma?

Os desafios do século XXI são globais, inesperados e férteis em conseqüências. As respostas terão que ser globais e multilaterais. Deverão estar mais assentadas na co-responsabilização dos poderes regionais do que nas proeminências individuais.

 

4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Tratar dos modelos que objetivam a apreensão e interpretação das relações internacionais é tarefa instigante, na medida em que tentam compreender as conformações do mundo em diferentes épocas.

Como se depreende do estudo realizado, permanecem elementos de ligação entre os paradigmas. Tal menção é pertinente quando se observa no idealismo a extrema preocupação com a valorização do ser humano e de seu bem-estar. No realismo, a preocupação do poder que decorre dos Estados e do militarismo. Na teoria da dependência, a preocupação dos países em desenvolvimento ante a dependência externa.

Por sua vez, aparece o paradigma da interdependência, quase que paralelo à teoria da dependência, moldando novo cenário internacional, repleto de atores interagindo em um ambiente onde as fronteiras dos Estados soberanos tornam-se flexíveis.

No entanto, a teoria da interdependência não envolve todos os aspectos da vida contemporânea. Talvez seja necessária outra perspectiva teórica, enfim, um modelo que possa interpretar certos fenômenos internacionais, como o terrorismo, com maior clareza e análise.

Em virtude dessas considerações, pode-se dizer que, não parece ser o melhor caminho filiar-se incondicionalmente a qualquer um dos paradigmas das Relações Internacionais aqui apresentados, pois, a continuidade e mudança que caracterizam a história da civilização humana tornam impossível a adoção de explicações simples e estáticas.

A realidade está a mostrar que nenhum modelo, nem realista, nem interdependentista, é verdadeiramente adequado para explicar a complexidade da política mundial.  

Para a construção de uma ordem mundial justa e solidária, a humanidade deve optar pela paz, pela cultura da não-violência e pela solidariedade entre os povos. Feita esta opção, a utopia do passado pode transformar-se numa realidade plausível. 

De fato, o idealismo está retornando nos presentes dias, como complementação aos atuais paradigmas. Devem ser resgatados os valores morais, éticos, o humanismo, enfim, uma vida possível, neste caso, envolvendo o meio ambiente e a democracia.

Neste sentido, devem ser resgatadas as potencialidades da globalização includente e emancipatória. Isto não quer dizer que se deve abrir mão dos avanços das ciências, mas é imperioso colocá-los a serviço de toda a humanidade.   

Em remate, o sentimento de solidariedade não é apenas um discurso retórico, mas uma necessidade que precisa ser implementada pelos Estados, por ser um elemento necessário ao desenvolvimento e à otimização dos potenciais da civilização humana.

 

5.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRUM, Argemiro Luís. A economia internacional na entrada do século XXI: transformações irreversíveis. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2002.

 

COUTINHO, Dirceu M. Globalizantes & Globalizados. São Paulo: Aduaneiras, 2002.

 

DEMAS-MARTY, Mireille. Três desafios para um direito mundial. Tradução de Fauzi Hassan Choukr. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2003.

 

FERNANDES, António José. Relações internacionais contemporâneas do mundo da Europa à Europa do mundo. Itajaí: Univali, 1998.

 

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito. Tradução de Norberto de Paula Lima. São Paulo: Ícone, 1997.

 

HOBBES, Thomas. Leviatan: o la matéria, forma y poder de uma republica, eclesiástica y civil. Traducción y prefacio de Manuel Sánchez Sarto. México: Fondo de Cultura Económica, 1996, 618p. 

 

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975.

 

LOPES VAZQUEZ, José. Manual de exportação. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

 

MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de. O espírito das leis: as formas de governo, a federação, a divisão dos poderes, presidencialismo versus parlamentarismo. Tradução de Pedro Vieira Mota. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, 235p. 

 

OLIVEIRA, Odete Maria de; DAL RI JÚNIOR, Arno. Relações Internacionais: interdependência e sociedade global. Ijuí: Unijuí, 2003.

 

ROUSSEAU, Jean-Jaques. O contrato social. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, 186p.

 

 

 


[1] OLIVEIRA, Odete Maria de; DAL RI JÚNIOR, Arno. Relações Internacionais: interdependência e sociedade global. Ijuí: Unijuí, 2003, 728p.

[2] KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975, p 13.

[3] Segundo Kuhn, uma ciência evolui por etapas que ora são de evolução normal, ora de ruptura revolucionária, sendo as rupturas revolucionárias as que mais contribuem para o progresso dessa ciência. O momento em que um novo grupo de praticantes começa a questionar o paradigma de uma determinada ciência, apresentando a proposta de um novo paradigma capaz de direcionar os esforços de pesquisa para resolver problemas não reconhecidos ou não resolvidos pela comunidade partidária do paradigma até então vigente, tem-se a efetiva revolução científica. O progresso de ciências, como física, química, astronomia, dentre outras, efetivamente se deu, na visão de Kuhn, através destas revoluções científicas resultantes da luta entre as comunidades do paradigma dominante e do paradigma emergente.

[4] OLIVEIRA e DAL RI JÚNIOR, p 37.

[5] KUHN, em A estrutura das revoluções científicas, sustenta as seguintes teses: a) Evidências empíricas são insuficientes para resolver impasses relativos à aceitação de teorias porque escolhas de teorias dependem mais dos modos pelos quais os cientistas são socializados do que da adequação empírica das teorias em competição; b) Os cientistas resistem a teorias que contrariam crenças e interesses dos grupos aos quais pertencem sem se preocupar em saber se estas teorias exibem ou não um poder explicativo comparativamente elevado; c) Os cientistas adaptam suas concepções às exigências de seu ambiente sócio-político; d) Fatores que não são origem cognitiva podem ajudar a derrubar uma teoria. Considerando que todo o cientista teve o seu processo de formação e socialização na qual absorveu os paradigmas dominantes na comunidade da sua ciência, assumir, conforme propõe Kuhn, que a força destes paradigmas acabam decidindo os caminhos do progresso da ciência, é assumir que as evidências empíricas de uma teoria, sua capacidade lógica de resistir à crítica não são fatores suficientes para que a mesma supere outra teoria que não tem a mesma consistência. Isto significa aceitar o argumento que aspectos do ambiente sócio-político, valores, crenças, existentes na comunidade que compartilha o mesmo paradigma prevalecem nas decisões sobre quais problemas pesquisar, quais teorias devem sofrer um processo de resistência da comunidade, sem mesmo procurar saber quando o poder de explicação de uma teoria é mais elevado do que de outra concorrente no campo daquela ciência.

[6] Ibidem, p 60.

[7] KUHN, p 209.

[8] OLIVEIRA e DAL RI JÚNIOR, p 44.

[9] Woodrow Wilson busca em Kant – “A Paz Perpétua” - sustentação para seu discurso. Kant dizia que tanto os indivíduos quanto os Estados têm questões morais diferentes. Assim, para se alcançar a Paz, a solução é a moral coletiva, num âmbito mais amplo, a moral internacional. 

[10] O realismo moderno conhece a sua primeira formulação substancial com a obra de Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”, contudo, é somente com Thomas Hobbes que seus pilares conceituais – como estado de natureza e luta pela sobrevivência – são epistemológica e ontologicamente cristalizados.

[11] Há vários expoentes do paradigma realista, dentre eles destacam-se: Hans J. Morgenthau, Henry Kissinger, Edward Hallet Carr, Martin Wight, Reinhold Niebuhr, Robert Gilpin, Kenneth Waltz.

[12] Durante a Guerra Fria prevaleceu o princípio do exercício de poder fundado na capacidade militar para a defesa do interesse nacional, bipolarizado por duas potências, a União Soviética e os Estados Unidos. Ademais, a pluralidade do sistema de alianças no âmbito vertical, o crescimento da Organização das Nações Unidas, os processos de descolonização, o distanciamento econômico entre países ricos e pobres, o crescimento da diplomacia e o surgimento da economia transnacional são elementos que contribuíram para a complexidade da ordem mundial.

[13] Na Europa, esta teoria é conhecida como neo-marxista. Esta teoria foi extremamente criticada e refutada pelos EUA e por outros países desenvolvidos.

[14] Os teóricos do paradigma da dependência afirmam que a construção histórica criou o subdesenvolvimento. Durante o mercantilismo, o Estado mais poderoso era o que possuía mais metais precisos. Assim, teve início à exploração entre os Estado, pois, os Estados só queriam exportar com o objetivo de acumular metais preciosos. Os Estados começam a explorar suas “colônias” em busca da extração de metais preciosos ou de matéria prima a ser exportada e neste contexto, nasce o protecionismo. Por sua vez, a Revolução Industrial maximiza este cenário, pois os Estados que foram colônias continuam sendo subdesenvolvidos (dependência externa), ou seja, fornecedores de matéria-prima.

[15] Os novos atores no cenário internacional são: as empresas transnacionais, as organizações internacionais, a sociedade civil organizada (ONGs), grupos de interesses (sindicatos, grupos terroristas). Esta teoria é apresentada por Robert O. Keohane e Joseph S. Nye, com os estudos consolidados na obra “Power and Independence”.

[16] Atualmente, o ator global privilegiado são as empresas transnacionais, que são detentoras do dinheiro, da tecnologia, dos serviços e da circulação de mercadorias. As empresas transnacionais têm a seu favor a globalização neoliberal – Estado mínimo. Na verdade, todos os novos atores internacionais atuam ao largo dos Estados e, por conseguinte, interferindo em suas ações.

[17] “A palavra soberania foi posta em voga por Jean Bodin no último quartel do século XVI. No seu trabalho intitulado ‘Les Six Livres de la République’, datado de 1576, Jean Bodin definiu a soberania como ‘um poder que não tem igual na ordem interna nem superior na ordem externa’. O poder soberano é, assim, um poder supremo, que não está limitado internamente por nenhum outro, e um poder independente, que não está subordinado a qualquer outro” FERNANDES, António José. Relações internacionais contemporâneas do mundo da Europa à Europa do mundo. Itajaí: Univali, 1998, p.38.

[18] A sensibilidade se traduz pela existência de diferentes graus de resposta dentro de uma estrutura política quando existe alguma motivação, ou seja, com que rapidez e com que intensidade os abalos – econômicos, financeiros, políticos, sociais, ecológicos – vividos por um país atingem a outro. Por sua vez, a idéia de vulnerabilidade fica visível a partir do momento em que a sensibilidade de um Estado, ou outros atores fica exposta e não têm onde se socorrer.  A vulnerabilidade requer situação política mais dinâmica, passível de alterações, que levam por fim a custos econômicos e políticos no interior de cada Estado e que acabam alçando este a uma situação menos vulnerável. 

[19] “..., globalização é o movimento transnacional que envolve as empresas do mundo, na busca da absoluta prioridade de competitividade, geradora dos benefícios da lucratividade dos negócios e do ambiente, pois que o atingimento de um deve igualmente e na mesma intensidade atingir o outro, condição primordial para que haja globalização de interesses”. LOPES VAZQUEZ, José. Manual de exportação. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002, p.116.  

[20] Como canais múltiplos entende-se uma extensa rede de relações entre diferentes atores, organizações, empresas transnacionais, empresas privadas e atores governamentais. Os canais múltiplos são os instrumentos pelos quais o paradigma da interdependência explica e reconhece o enfraquecimento do Estado e o surgimento de novos e importantes atores internacionais.